“Ele: não vai acontecer nada. Ela: já está acontecendo em suas cabeças. Nas suas cabeças, isso é o que você está fazendo, o que meu marido está fazendo” (Black Mirror, 1ª temporada, episódio 1: O hino nacional).

 

Imagem: www.flickr.com:viniciusb

Imagem: www.flickr.com:viniciusb

Admito que o uso da palavra “império” me incomoda. Talvez por sua aproximação com “imperialismo”, quer dizer, pelo “uso” abusivo que faz o mercado das imagens daquilo que se produz – sendo este um ponto essencial diante do qual a psicanálise se subverte.

Assim, me perguntei, em mais de uma oportunidade, sobre como abordaria o tema proposto para a noite de hoje. Ocorreram-me algumas ideias que logo descartava. Até que sobreveio uma lembrança de infância que estava adormecida, proporcionando-me o empurrão buscado.

Remonto aos meus sete anos, quando irrompeu na vida familiar a presença de um irmão vários anos mais velho do que eu, causando uma brusca queda de minha versão do “império da dita” – como relatei no meu testemunho durante as últimas Jornadas anuais da EOL. Uma coincidência fez com que entrasse em casa a primeira televisão: “LA TE VE”[1].

Eu passava horas diante dessa tela em branco e preto, absorta, silenciosa. Lembro-me desses momentos amargos, densos, onde eu permanecia “adormecida” em um sonho continuado. Não havia lido ainda, claro, o que Lacan indicava: “Jamais me olhas lá de onde te vejo” e “o que eu olho não é jamais o que quero ver”[2].

Poderíamos dizer que, para a psicanálise, a autoconservação da vida depende da inscrição no desejo do Outro. Para Freud, “(…) os olhos percebem não só alterações no mundo eterno, que são importantes para a preservação da vida (prazer egoico), como também as características dos objetos que os fazem ser escolhidos como objetos de amor (prazer sexual): seus encantos[3]. No que me concerne, rompeu-se, ali, a função de véu, de engodo que sustentava a crença de ser olhada por meus encantos e, deste modo, de me assegurar um lugar no desejo do Outro. Diante do olhar que retornava no horror, o olho foi em busca de outro estímulo.

Frente à LA TE VE, comecei a imaginar que era a encantadora heroína que conquistaria o Cavaleiro Solitário ou ganharia o coração de Maverick. Ou uma amorosa dona da Lassie e, por que não, uma valente cuidadora de Rin Tin Tin. Embeveciam-me as anacrônicas – sim, que o são! – “Papai sabe tudo”… “Mas, é mamãe quem manda”. E as de super-heróis – que paixão! – Super Homem, Batman, Mulher Maravilha.

Ao revelar-se a palavra proferida pelo Outro em seu estatuto de verdade mentirosa –como não podia ser de outra maneira – resultou para o sujeito um momento de encontro com o engano, com a queda de seu poder (o do Outro e o do sujeito).

Não se fez o que se disse. A palavra do Outro perdeu seu valor ao quebrar a promessa de amor pela menina e fui inventar outra ficção com palavras que eu imaginara. Porque, caramba, como eu tinha conversações em meu pensamento, com esses personagens que LA TE VE me provinha!

Tanto é que, naquela época, deixei de escrever, recurso ao qual havia lançado mão desde muito pequena e que tanta satisfação me produzia. Tocada minha imagem amável para o Outro, buscava em meus devaneios com LA TE VE, restituir o perdido.

Está estruturalmente muito longe do que se busca-encontra hoje no mundo voraz da imagem? Prefiro dizer deste modo: o contexto muda, mas desemboca no que o estrutural repete, cunhando um impossível (real) de ser capturado com alguma garantia.

Parece tratar-se da ilusão de um “fazer” que lograria recuperar o valor da palavra dada, sua autoridade, sua veracidade. Que o que a visão pode apreender, o que se vê, funcionasse como verificador do compromisso da palavra: “garantia fantasmática”.[4] Mas, esta é uma busca impossível: o que a imagem verifica não consegue trazer de volta o valor da palavra e se perde no gancho do apetite escópico que se distrai do importante e redobra a indignidade da palavra dada.

O episódio de Black Mirror citado mostra como todos os britânicos estão “cegos” ao essencial: por querer olhar o “ato” que irá garantir que se cumpra a palavra do primeiro ministro e a promessa de liberação da princesa por parte do sequestrador, não há ninguém nas ruas vazias, ninguém para descobrir que a dama já foi liberada meia hora antes do “ato” e, assim, não haveria nada para verificar, vendo. E isto nos remete à deflação da palavra.

Um tweet permite “ver” o que se “diz-escrito”, como se, mediante a fixação da imagem, se pudesse confiar em algo, um pouco mais… As imagens de hoje vociferam sem saber o que dizem. Olhem a “TE VE” destes tempos, atormentada por um blá-blá-blá banal, redundante, insultuoso, pusilânime, imoral também.

Minha LA TE VE era diferente, não apenas porque se situa 50 anos atrás, mas porque é a que eu criei, ficção alimentada em meus pensamentos, fantasia.

Em Black Mirror, o roteirista Charlie Brooker nos leva à dianteira: é um artista, mas está no quadro que filma até deter-se no umbral da tela que se rasga em cada capítulo.

Eu vivia submersa no curioso paradoxo da imagem, que pode nos seduzir de mil maneiras até inventar, sonhar, especular que o que se vê, se imagina, é o que se é e o que se diz do que se é. É o que este recurso da infância me permitiu.

Nos tempos que correm, parece se fazer o esforço de enganchar a palavra em uma imagem que se possa guardar, reproduzir e, melhor ainda, enviar para todo lado para que não se perca! Aos gritoooooooooooos! Isso não vai lhe dar mais legitimidade, mais autoridade.

Lá pelos anos de 1960, John Langshaw Austin, tão britânico quanto o roteirista de Black Mirror, filósofo da linguagem, dedicou-se aos enunciados chamados “performativos”, estes atos da fala que lhe dão autenticidade.[5]

Podemos dizer que uma psicanálise se sustenta de enunciados performativos? Eis um tema controverso que merece aprofundamento. Em todo caso, o que, nesse primeiro episódio de Black Mirror, se mostra em seu lugar é esse “ato” ao qual me referi anteriormente: o ato bizarro de copular com um porco diante dos olhos famintos dos britânicos. Um ato que só pode fracassar, como todo ato. Não há ato (sexual). Não há.

O performativo pode nos levar mais perto desse real, desse impossível, do que a ilusão da tela negra? Se pensarmos que nós, falantes, não chegamos mais longe que do ato de fantasiar, de imaginar…

Eu diria que a chamada “caixa boba” me forneceu, naqueles tempos, uma via de escape ao que me atormentava, fazendo de mim uma sonhadora acordada que não queria despertar desses sonhos de infância, onde era a imperatriz de meu império imaginado e de tudo o que eu quisesse ser. Dessa forma, quem poderia ser mais confiável do que minha própria imaginação?

Já, desde esse tempo, minha desconfiança pelo que vinha do Outro – cujos fatos, considerava puro blá-blá-blá – e também minha interrogação crítica encontravam fundamento e suporte.

Mas, ficava um resto inassimilável que não se dobrava ao véu e que se fazia notar.

O silêncio era acompanhado de um sintoma: presa de uma sinusite crônica, eu me faria objeto dos grandes avanços científicos do momento: nebulizações, operação de adenoide, punção do osso maxilar, antibióticos injetáveis. E, como era de se esperar, na histeria, o corpo contesta a ciência e “fala” com a verdade do sintoma: o muco que a menina dirige ao campo do Outro é um ressabio, fluido que se instala no silêncio da presença muda diante de LA TE VE. Complacência somática para Freud, rechaço do corpo para Lacan. Rompe com a autoconservação e é também objeção muda ao saber do Outro.

Em silêncio, com a caixa boba, eu me entendia melhor. Aqui, o olhar se põe em tensão e se destina a produzir uma “cegueira” de outra ordem para fazer-se, novamente, objeto de atenção do Outro. Mas, sobretudo, se distancia de sua atenção no mundo e goza em sua absorção na TE VE. Refaz-se um gozo enquadrado na TE VE, satisfação substitutiva, transitória, mas um sintoma: o muco que, ao alterar a respiração, transtornava o falar e o canto – zona “amável” para a menina – com o gozo sintomático.

Algo me tirou dali porque, além do mais, eu quis sair dali: um encontro de desejos. Mais precisamente, o desejo de um pediatra e de uma professora. Ele enviou minha mãe a outro consultório (quer dizer, mostrou-se Outro barrado em relação ao saber científico e, portanto, desejante). Então, eu topei com um médico homeopata que soube sugestionar o suficiente a menininha para que, com seus glóbulos, a sinusite fosse de vez. E também a professora do fundamental. Como eu não podia ir ao colégio, ela se ofereceu para ir à minha casa me ensinar a regra de três. Só assim fui abandonando minha quadrada amiga daqueles tempos difíceis – LA TE VE – para entrar em cheio no mundo escolar.

“Só o amor permite ao gozo condescender ao desejo”. Consegui reingressar nas vias do saber, da escritura e da ciência. Uma suposição que me levou a estudar medicina. Mais tarde, recaí em outra suposição: aquela que a psicanálise oferece para me animar a chegar até esse umbral indizível, esse espelho negro de cada um, com sua esquize estrutural.

E é nisso que acredito ainda hoje e o que vou constatando, entre vários, em um dos grupos de pesquisa que trabalha para as Conversações do ENAPOL. Coletamos as respostas únicas de cada sujeito desta época, de como ele se liga e se desliga, e como ele se serve desses Black Mirrors a seu alcance.

 

 

 

Tradução: Mª Cristina Maia Fernandes
Texto revisado pela autora
Revisão final em português: Adriano Messias
[1] Por causa da homofonia no espanhol de TE VE com “te ver”, foi mantida a versão original [NT].
[2] LACAN, Jacques. Lição VIII, A linha e a luz. In: O Seminário. Livro 11. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1979, p. 100.
[3] FREUD, Sigmund. A concepção psicanalítica da perturbação psicogênica da visão. In: Tomo XI da Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1982, p. 201.
[4] MUSACHI, Graciela. Boletim Flash n. 1. Disponível em: http://oimperiodasimagens.com/pt/boletim/
[5] AUSTIN, John L. Como hacer cosas con palabras: palabras y acciones. Buenos Aires: Paidós, 1982.