Uma imagem vale mais do que mil palavras, como diz o ditado usado frequentemente no campo da publicidade, o que indica, tal como articula Lacan, que é a economia que funda o valor[1], dizendo, de passagem, que é uma prática sem valor o que se trataria de instituir para os psicanalistas. A imagem assim evocada faz parte do discurso capitalista, e, como todo discurso, tem um efeito de sugestão: é hipnótico, ressoa no sentido, de onde advém sua marca, sua operacionalidade. Por outro lado, o inconsciente é isso, diz Lacan: “aprendeu-se a falar e, devido a isso, alguém se deixou sugerir pela linguagem por todo tipo de coisas”.

Uma certa tendência de se pensar que a imagem não engana, que não se presta a mal-entendidos, que é garantia de todo dado real, é um blefe que, de fato, tem sucesso nos meios de informação: introduzir a imagem entre as palavras, suave ou bruscamente, tentando-se produzir um efeito de verdade, evoca a tentativa de se escamotear a aliança da imagem com o dormir, e ela é apresentada como aquilo que diz: “acorde!”. Escutamos, no mesmo sentido, dizer-se ao sujeito que venha nos ver com a prova rainha em suas mãos, o que dá sustentação e firmeza a seus brios: “não me contaram, eu vi!”. Instante de ver que se erige airoso, que determina o sentido, e que pretende deixar a pretensa liberdade de quem vê a imagem, a compreensão e a conclusão. Mas, daí, nada; a cartilha já está dada, já se julgou a partida de antemão. A imagem, assim concebida, é uma imagem dotada de corpo, de gozo, de alma, e ainda de um estático brilho. Atribui-se a ela uma história, um antes, um depois, e esta se torna animada com o sopro do movimento, convertido em evocação.

Certamente, a dimensão de sugestão à qual Lacan alude não está dada para o sujeito autista. Não há valor da imagem. Nada de Outro. Para ele, uma imagem não diz nada em troca de outra coisa (de mil palavras, por exemplo), não substitui nada, simplesmente é; de tal maneira, que a célebre autista Temple Grandin diz em Pensar con imágenes/ Pensar com imagens[2][3] (título de seu livro mais famoso): “Quando não posso converter o texto em imagens, costuma ser porque o texto não tem um significado concreto”[4]. Assim estabelecido, a conversão da qual se trata não é uma transformação, não há um pano de fundo, nem uma cartilha, nem dois níveis em jogo; aqui, o suporte e o material são a mesma coisa (que é o contrário de se pensar a letra como suporte material do significante). Encontramos também o caminho que Naoki Higashida, o garoto autista japonês, autor do belo e inspirador livro La razón por la que salto[5]/ O que me faz pular[6], assinala: “as letras, os símbolos e os signos são meus melhores aliados, porque nunca mudam. Ficam como estão, e se fixam em minha memória. Com minhas letras não me sinto sozinho[7]. E acrescenta: “esta simplicidade, esta claridade, nos é reconfortante”[8]

É claro que os tratamentos para o autismo que promovem o uso indiscriminado dos pictogramas como único elemento de comunicação eficaz são baseados na observação deste aspecto de interesse, de pregnância que a imagem pode ter para um sujeito autista; entretanto, o próprio Naomi adverte, e é preciso escutá-lo: “… pode ser que alguns autistas pareçam mais felizes com imagens e diagramas, de onde se supõe onde deva estar em cada momento, mas, de fato, isso acaba nos limitando. Faz-nos sentir como robôs que têm cada uma de suas ações pré-programadas” (p. 56). É claro que o uso dos pictogramas como meio de comunicação para o sujeito autista, como via que conduz a uma intenção comunicativa, cobra, na medida em que se pretende universal, o valor do discurso. De onde provém sua enunciação, e esta é, com efeito, a marca indelével do Outro. Por isso, para o autista, “a vida em si mesma é uma batalha”, conclui Naomi.

 

 

Tradução do espanhol: Adriano Messias

[1] LACAN, J. L’Insu… Sem. 24 1976-1977. p. 43 (ed. inédita).

[2] GRANDIN, Temple. Pensar con imágenes. Mi vida con el autismo. Alba Editorial: Barcelona, 2011.

[3] No original, Thinking in pictures. (N.T.)

[4] Pág. 37

[5] HIGASHIDA, Naoki. La razón por la que salto. Roca Editorial: Barcelona, 1ª edição, abril de 2014.

[6] HIGASHIDA, Naoki. O que me faz pular. São Paulo: Intrínseca, 2014. (N.T.)

[7] Ibid. p. 26.

[8] P. 42.