Tomarei como ponto de partida um curta metragem protagonizado por Kirsten Dunst e realizado por Matthew Frost intitulado em inglês Aspirational. http://www.youtube.com/watch?v=rwDbOmPQNx0&sns=em

Este curta mostra muito bem a potência das imagens, a potência das imagens em demérito do vínculo com o outro, e com o Outro. São duas jovens que vão em direção a Kirsten na rua, estão de carro e ao vê-la param, asseguram-se de que se trata da mencionada atriz e ambas tiram seus respectivos selfies, “compartilhando” imediatamente suas imagens em alguma plataforma virtual. Kirsten já não é mais desejável para as jovens, saindo de cena lhes diz se querem fazer alguma pergunta, ao que respondem com um “obrigada” como o da secretária eletrônica. Retiram-se olhando suas imagens cada uma em seu próprio celular diante do rosto surpreso de Kristen. O importante era ter a imagem dessa popular atriz, ela mesma não interessa mais. O gozo é olharem-se a si mesmas e, com a atriz que tiraram o selfie não se estabelece nenhum vínculo, dava no mesmo se tirassem sua imagem de um cartaz de publicidade.

O selfie é uma autofotografia, tirada com algum dispositivo digital, porém não se trata de uma nova maneira de fotografar, não é simplesmente o uso de um novo aparelho fruto do desenvolvimento tecnológico, não se está passando da câmera tradicional para a digital. Trata-se de uma prática onde o gozo está em capturar a própria imagem, por si mesmo, cujo efeito é mais relacionado ao autoerotismo, como dizia Freud a boca que beija a si mesma.

Escamoteia-se a relação ao Outro, debilita-se o discurso e o laço social, e podemos nos perguntar sobre os efeitos subjetivos dessa incessante captura de imagens vazias: não é a experiência que produz um quadro, uma fotografia. O selfie produz curtos-circuitos em relação ao encontro com o Outro e os outros e deixa o sujeito em uma experi6encia de gozo solitário. Como diz Miller: “Só podemos fazer da imagem um elemento do registro imaginário, definitivamente, se fizermos dela um significante… as imagens se significantizam, podem se transformar em significante e podem ser tomadas como significantes.”[1]

No caso dos selfies assistimos a uma compulsão de tirar ou de capturar, com qualquer dispositivo que se tenha em mãos, tudo o que o sujeito faz, da mais simples rotina de sua vida, até outros tipos de acontecimentos; muitos desses selfies servirão para rapidamente serem colocados nas diferentes plataformas virtuais, face, twittar, etc. A imediatez da imagem sem outro destino que alguma plataforma virtual, nem sequer o álbum de recordações. Como diz G. Wajcman: “A fantasia de ver tudo e de conservar tudo acompanha-se, paradoxalmente, de uma soberana indiferença ao assassinato da imagem… a imagem perdeu qualquer caráter sagrado, além do que nem sequer é um objeto. O virtual é ar e nada mais.”[2]

Se não existe Outro, a imagem fica isolada de significação, e a pergunta que formulamos é quais efeitos tem esse isolamento para a subjetividade dos sujeitos. A imagem está no lugar do significante? É uma pergunta. A imagem somente produziria um gozo no Corpo. Quais consequências para o laço social? Que lugar para o encontro? Perguntas apropriadas para o âmbito de nossa prática.

A acumulação de imagens cumpriria um tamponamento sobre o que não é captado, nem pela imagem, nem pela palavra, do real, disso que não queremos saber.

 

Tradução do espanhol: Maria do Carmo Dias Batista

 

 

[1] Miller, J.-A. Lacan Elucidado. Rio de Janeiro, JZE, 1997, p. 576.

[2] Wajcman, G. El Ojo absoluto. Buenos Aires, Manancial, 2010, p. 256.