As Conversações, tal como introduzidas no último ENAPOL, foram um êxito: epistêmico, clínico e político. Não apenas pelo número de colegas envolvidos e pelos intercâmbios proporcionados entre as três Escolas da FAPOL, mas também pelos avanços que permitiram nossa maneira de pensar a experiência analítica na contemporaneidade e pelos documentos de trabalho produzidos. “Falar com o corpo”, sintagma explorado em várias perspectivas, abriu caminho para o que foi introduzido por Jacques-Alain Miller a seguir como “o corpo falante”, nova maneira de pensar o inconsciente no século XXI. Retomada no ENAPOL VII, a fórmula das Conversações já se coloca em marcha com os grupos de trabalho formados, possibilitando novos encontros, presenciais e virtuais, no âmbito da FAPOL.

Os textos de Mauricio Tarrab e Raquel Cors Ulloa, neste Boletim, apontam o lado inquietante, para o melhor e para o pior, do império das imagens. Sem nostalgia de restabelecer o referente desvanecido, ambos ressaltam a importância da orientação proporcionada pela psicanálise diante da ineficácia simbólica de nossos dias. A precariedade da significação fálica exige um saber fazer com o corpo e o seu gozo que passa por um uso das imagens que valha a pena.

O filósofo e sociólogo Zygmunt Bauman, a propósito do massacre dos cartunistas do Charlie Hebdo, ocorrido em Paris em janeiro – um episódio que se inscreve na época do império das imagens – diz que a violência hoje não é mais dirigida aos chefes de Estado – como Abraham Lincoln – ou aos símbolos do capitalismo – como o World Trade Center. Os alvos do assassinato político são indivíduos, o que seria o resultado da desinstitucionalização e privatização da condição humana. A responsabilidade última seria portanto individual[1]. A violência é dirigida aos formadores de opinião, através de imagens propagadas globalmente, a nível planetário.

Pensemos, a partir desta reflexão, que uso a psicanálise pode fazer das imagens e da presença, in situ, de cada psicanalista. O Seminário de Lacan sobre Joyce é um guia indispensável a ser explorado nas manipulações dos três registros e nas maneiras possíveis de dar consistência ao corpo proporcionadas pela experiência analítica.

Elisa Alvarenga

 

[1] BAUMAN, Z. Le terrorisme de la “dérégulation”, in Marianne n. 927, Paris, 23-29.01.2015.